ORIENTAÇÃO NORMATIVA Nº 01/2013 DE 02/12/2013
Avaliação na Educação Infantil: Aprimorando os Olhares
I. Considerações Iniciais
A
Educação Infantil vem sendo tema de inúmeras reflexões que enfatizam as
suas contribuições no desenvolvimento integral da criança de 0 (zero) a
5 (cinco) anos de idade.
A
Constituição Federal, por meio da Emenda Constitucional nº 53/06,
altera o artigo 208, estabelecendo como dever do Estado a garantia de
“educação infantil, em creches e pré-escolas, às crianças até 5 (cinco)
anos de idade”.
Em
2009, nova Emenda Constitucional fez-se necessária, a EC nº. 59/09
dessa vez determina que a educação básica obrigatória e gratuita passará
a ser dos 4 (quatro) aos 17 (dezessete) anos de idade, assegurada
inclusive sua oferta obrigatória para todos que não tiveram acesso na
idade própria.
A Lei Nº 9.394/1996,
que estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional, na mesma
esteira, vem sendo alterada, culminando com a edição da Lei Nº
12.796/2013, que alterou, entre outros, o art. 4º da LDB estabelecendo
como dever do Estado com a educação escolar pública a garantia de
educação básica obrigatória e gratuita dos 4 (quatro) aos 17 (dezessete)
anos de idade, organizada da seguinte forma:
a) pré-escola;
b) ensino fundamental;
c) ensino médio.
A mesma lei, ao tratar especificamente da Educação Infantil, altera os artigos 29, 30 e 31 da LDB, com a seguinte redação:
Art.
29 – A educação infantil, primeira etapa da educação básica, tem como
finalidade o desenvolvimento integral da criança de até 5 (cinco) anos,
em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social,
complementando a ação da família e da comunidade.
Art. 30 – A educação infantil será oferecida em:
I – creches, ou entidades equivalentes, para crianças de até 3 (três) anos de idade;
II – pré-escolas, para as crianças de 4 (quatro) e 5 (cinco) anos de idade.
Art. 31 – A educação infantil será organizada de acordo com as seguintes regras comuns:
I
– avaliação mediante acompanhamento e registro do desenvolvimento das
crianças, sem o objetivo de promoção, mesmo para o acesso ao ensino
fundamental;
II
– carga horária mínima anual de 800 (oitocentas) horas distribuídas por
um mínimo de 200 (duzentos) dias de trabalho educacional;
III
– atendimento à criança de, no mínimo, 4 (quatro) horas diárias para o
turno parcial e de 7 (sete) horas para a jornada integral;
IV
– controle de frequência pela instituição de educação pré-escolar,
exigida a frequência mínima de 60% (sessenta por cento) do total de
horas;
V – expedição de documentação que permita atestar os processos de desenvolvimento e aprendizagem da criança.
Frente
a tais determinações legais, a Secretaria Municipal de Educação
constitui Grupo de Trabalho, que possui representatividade de todas as
regiões da cidade, por meio da Portaria SME nº 5.076, de 02/09/13,
objetivando a elaboração da presente Orientação Normativa, visando
definir procedimentos comuns para que as Unidades Educacionais de
Educação Infantil realizem a avaliação do desenvolvimento das crianças e
sintetizem esse processo em documentação específica que permita
verificar a sua trajetória educacional nessa etapa de educação.
Nessa
mesma linha, no decorrer desse processo o Conselho Municipal de
Educação expede a Indicação nº 17, publicada no DOC de 26 de novembro de
2013.
II. Concepção de Educação Infantil
(...)
um oásis, um lugar onde se torna criança, onde não se trabalha, onde se
pode crescer, sem deixar de ser criança, onde se descobre (e se
conhece) o mundo através do brincar, das relações mais variadas com o
ambiente, com os objetos e as pessoas, principalmente entre elas: as
crianças.(FARIA , 2003)
As
Unidades Educacionais de Educação Infantil: Escola Municipal de
Educação Infantil - EMEI, Escola Municipal de Educação Bilíngüe para
Surdos – EMEBS, Centro de Educação Infantil - CEI, Centro de Educação
Infantil Indígena – CEII e Centro Municipal de Educação Infantil –
CEMEI, que recebem bebês e crianças pequenas de 0 (zero) a 5 (cinco)
anos, constituem- se em locais coletivos privilegiados para a vivência
das infâncias.
O
termo “privilegiados” é utilizado, por serem espaços pensados com e
para todos os atores sociais de pouca idade: bebês e crianças, meninos e
meninas, pobres e ricos (as), negros (as), brancos (as) e indígenas,
brasileiros (as) e estrangeiros (as), paulistanos (as) e migrantes,
sejam eles (as) deficientes, com distúrbios globais do desenvolvimento,
altas habilidades/superdotação ou não.
Tais
instituições possuem uma multiplicidade de configurações, vez que
consideram de suma importância compreender o contexto sociocultural das
infâncias e suas especificidades na sociedade contemporânea, para
constituir práticas educativas autorais e adequadas às necessidades e
interesses das crianças e suas famílias. Isso somente se efetiva na
aproximação das relações com as famílias e comunidade por meio do
diálogo e respeito mútuo entre os espaços educativos e a rede de
relações em que as crianças estão inseridas.
Na
Educação Infantil as crianças têm direito ao lúdico, à imaginação, à
criação, ao acolhimento, à curiosidade, à brincadeira, à democracia, à
proteção, à saúde, à liberdade, à confiança, ao respeito, à dignidade, à
convivência e à interação com seus pares para a produção de culturas
infantis e com os adultos, quando o cuidar e o educar são dimensões
presentes e indissociáveis em todos os momentos do cotidiano das
unidades educacionais.
Dessa
forma, a organização do tempo e dos espaços nas Unidades deve
privilegiar as relações entre as crianças com a mesma idade e também de
faixas etárias diferentes, suas escolhas e autonomia, a acessibilidade
aos materiais, o deslocamento pelas salas e outras dependências da
instituição e fora dela.
As
crianças devem ter contato com o conhecimento construído historicamente
e serem valorizadas também como produtoras e co-construtoras dos
mesmos. Desse modo, o papel do Educador da Educação Infantil é daquele
que escuta as vozes dos meninos e meninas, articula e apoia suas
descobertas, criando condições para a produção do conhecimento de
maneira integral e não fragmentada.
Destaca-se
que considerar as falas e expressões das crianças e bebês, carregadas
de indicações sobre como os mesmos pensam a escola da infância
constituem-se em um valioso subsídio para a construção de espaços mais
ricos e significativos para eles, considerando seus interesses e
necessidades. Nesse sentido, a instituição de Educação Infantil é
pensada para e com as crianças e suas famílias.
As
propostas pedagógicas, em conformidade com as Diretrizes Curriculares
Nacionais para a Educação Infantil – Resolução CNE/CEB nº 5/09, devem
respeitar os princípios éticos, políticos e estéticos e ter como
objetivo garantir à criança o acesso a processos de apropriação,
renovação e articulação de conhecimentos e aprendizagens de diferentes
linguagens.
Enfim,
um grande desafio para a Rede Municipal configurasse em fazer das
Unidades de Educação Infantil aquele oásis citado inicialmente: um local
para ser criança; para se viver a infância; onde se brinca; onde as
falas, expressões e choros são considerados; onde se corre; se pinta; se
dança; se canta; se fotografa; se desenha; se cozinha; se escreve; se
lê; na relação com o espaço/tempo/materiais, com os adultos e
especialmente com outras crianças e bebês.
III. Concepção de Criança/Infância
As
concepções sobre criança e infância são construções sociais, históricas
e culturais que se consolidam nos diferentes contextos nos quais são
produzidas e a partir de múltiplas variáveis como etnia, classe social,
gênero e condições socioeconômicas das quais as crianças fazem parte.
Considerando tais elementos e a sua relação com a imagem de criança
construída no tempo e na história, pode-se afirmar a existência de
múltiplas infâncias e de várias formas de ser criança.
Visando
à construção de uma Pedagogia para/com a Infância, que, segundo o
Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA, se estende até aos doze
anos, permeando tanto a Educação Infantil
quanto o Ensino Fundamental, defende-se uma concepção de criança
contextualizada em sua concretude de existência social, cultural e
histórica, participante da sociedade e da cultura de seu tempo e espaço,
modificando e sendo modificada por elas.
Dessa
forma, considera-se que essas concepções se revelam, sobretudo, na
forma como as Unidades de Educação Infantil organizam espaços, tempos,
materiais, relações e currículo para a construção de um trabalho
pedagógico que considere a criança em sua integralidade, ou seja, que
considere a criança como pessoa capaz, que tem direito de ser ouvida e
de ser levada a sério em suas especificidades enquanto ‘sujeito
potente’, socialmente competente, com direito à voz e à participação nas
escolhas; como pessoa que consegue criar e recriar, “verter e subverter
a ordem das coisas”, refundar e ressignificar a história individual e
social; como pessoa que vê o mundo com seus próprios olhos, levantando
hipóteses, construindo relações, teorias e culturas infantis por meio da
expressão e da manifestação nas diferentes linguagens e nos diferentes
modos de agir, construindo seus saberes e (re)ensinando aos adultos a
olhar o mundo com “olhos de criança”.
IV. Concepção de Currículo
As
concepções mencionadas anteriormente revelam-se nas formas como as
Unidades de Educação Infantil pensam e organizam o currículo com os seus
tempos, espaços, ambientes, interações, relações, materiais etc., como
construção sociocultural e histórica, que emerge “(...) da vida dos
encontros entre as crianças, seus colegas e os adultos e nos percursos
no mundo” (BRASIL, 2009, p. 50).
Como
o currículo emerge e se concretiza a partir dos encontros como
acontecimentos dialógicos entre culturas, histórias, representações e
narrativas, que congregam diversas etnias, gêneros, faixas etárias,
gerações sendo traduzidas em ações que envolvem a criança no seu
dia-a-dia nas Unidades de Educação Infantil, como algo vivo e dinâmico,
não havendo assim, possibilidade de desvinculá-lo da vida. Todavia é
importante salientar que (...)
a vida na educação infantil explicita uma concepção curricular, mas a
vida não é o currículo, o currículo, enquanto organização e
sistematização de intenções educacionais e pedagógicas, não pode dar
conta do excesso de sentidos, do invisível que há no viver cotidiano
(idem, p. 57).
Consoante
esse entendimento, o artigo 3º das Diretrizes Curriculares Nacionais
para Educação Infantil, de caráter mandatário, a serem observadas na
elaboração das propostas pedagógicas de cada estabelecimento de educação
infantil, dispõe que, o currículo da Educação Infantil é concebido como
um conjunto de práticas que buscam articular as experiências e os
saberes das crianças com os conhecimentos que fazem parte do patrimônio
cultural, artístico, ambiental, científico e tecnológico, de modo a
promover o desenvolvimento integral de crianças de 0 a 5 anos de idade.
O
currículo que se dá no espaço e tempo vivido, na relação e interlocução
entre as crianças e os adultos, mas também no tempo do recolhimento, da
individualidade e da imprevisibilidade, dos acontecimentos do cotidiano
e, bem ainda para além das situações planejadas, “(...) isto é, o
currículo diz respeito a acontecimentos cotidianos que não podem ser
objetivamente determinados, podem ser apenas planejados, tendo em vista
sua abertura ao inesperado.” (BRASIL, 2009, p. 57)
Assim
sendo, o currículo carrega o registro do percurso vivido, ou seja, está
continuamente em ação deixando marcas, aprendizagens e o registro sócio
histórico nas memórias dos seus protagonistas. Enfim, o currículo na
educação infantil, deve contemplar um caráter integrador e construir-se
envolvendo todos os atores do processo educativo, famílias, bebês,
crianças, educadores (as) e comunidade, tendo como eixo o lúdico, o
brincar e a arte, rompendo com o caráter prescritivo e homogeneizador,
bem como, com a cisão entre CEI e EMEI e desta com o Ensino Fundamental.
V. Perfil do Educador (a) da Infância
Considera-se
que todos (as) os (as) profissionais da Unidade de Educação Infantil
são educadores (as) porque contribuem para a formação e crescimento das
crianças, cuidando e educando-as. O (a) educador (a) da Infância deve
ter um papel fundamental como “observador participativo”, que intervém
para oferecer, em cada circunstância, os recursos necessários à
atividade infantil, de forma a desafiar, promover interações, despertar a
curiosidade, mediar conflitos, garantir realizações, experimentos,
tentativas, promover acesso à cultura, ossibilitando que as crianças
construam culturas infantis.
Os
(as) educadores (as) devem ser conhecedores da importância de seu papel
e da sua atuação nas relações com as crianças, com as famílias e com a
comunidade educativa. Sendo um dos co-construtores do Projeto Político
Pedagógico da unidade, faz-se necessário ter clareza de suas ações e
conhecimento teórico a respeito de todos os temas pertinentes à
infância, em especial sobre o cuidar e educar, consciência de que a
educação e uma prática social, portanto supõe intencionalidade na
Educação Infantil esta intencionalidade não está relacionada com
práticas de escolarização e antecipação de processos, nem tão pouco,
adaptação de práticas didáticas do Ensino Fundamental devendo estar em
consonância com os princípios da Pedagogia da Infância construída para e
com as crianças e com suas famílias.
Tais
princípios como: a) Considerar a criança como principal protagonista da
ação educativa; b) A indissociabilidade do cuidar e do educar no fazer
pedagógico; c) Considerar a criança como centro da atenção do Projeto
Político Pedagógico; d) Possibilitar à criança o acesso aos bens
culturais, construídos pela humanidade, considerando-as sujeito de
direitos, portadora de história e construtora das culturas infantis; e)
Reconhecer e valorizar a diversidade cultural das crianças e de suas
famílias; f) Dar destaque ao brincar, a ludicidade e às expressões das
crianças na prática pedagógica de construção de todas as dimensões
humanas; g) Considerar a organização do espaço físico e tempo como um
dos elementos fundamentais na construção dessa pedagogia; h) Efetivar
propostas que promovam a autonomia e multiplicidade de experiências; i)
Possibilitar a integração de diferentes idades entre os agrupamentos ou
turmas; j) Ter a arte como fundamento na formação dos (os) profissionais
da primeira etapa da Educação Básica; l) Estabelecer parcerias de
participação com as famílias; m) Estender o “espaço educativo” para a
rua ou bairro e a cidade; n) Buscar continuidade educativa da Educação
Infantil na direção do Ensino Fundamental;
Constituem-se
como fundamentos para uma prática docente que considere a criança como
sujeito ativo, potente e singular na percepção do mundo, estabelecendo
relações não adultocêntricas com as crianças onde as perspectivas dos
pequenos e pequenas sejam consideradas tanto no que se refere à
construção do currículo quanto a organização do planejamento pedagógico,
reconhecendo e se efetivando assim, o protagonismo infantil e o “lugar”
da criança no centro do Projeto Pedagógico.
Ao
considerar as vozes e perspectivas das crianças, compreende-se que o
trabalho pedagógico realizado nas instituições de educação infantil, se
concretiza enquanto um encontro entre as crianças e os adultos num
movimento dialético onde uma parte vem das crianças e outra dos adultos.
Nesse sentido, a relação entre os educadores (as) e as crianças é
fundamental para a construção dos conhecimentos a respeito de si e do
outro, favorece as relações afetivas, de proteção e bem-estar das
crianças, contribuindo para a formação de autoestima e autoimagem
positivas.
O
jogo, as brincadeiras infantis, os conhecimentos do cotidiano, as
práticas socioculturais, pressupõem um rico arcabouço de aprendizagens
sociais que permitem as crianças tempos e espaços para ressignificação e
construção das culturas infantis.
O
(a) educador (a) da infância ao elaborar o seu planejamento pedagógico
deve contemplar oportunidades para que o inesperado possa acontecer,
permitindo a reconstrução e aquisição de novos conhecimentos, construção
de teorias, tentativas e negociações entre as crianças. Além de
utilizarse da observação participativa como um instrumento para a
elaboração de registros escritos, fotográficos, audiovisuais e por meio
das produções das crianças, tais como, desenhos, esculturas, engenhocas,
maquetes, falas e expressões para refletir sobre quais intervenções
pedagógicas precisarão ser feitas a fim de oportunizar as crianças
sempre as melhores e mais ricas condições de viver as infâncias nos
contextos educativos das unidades de Educação Infantil.
O
educador (a) da infância, deverá lançar mão destes elementos para
compor relatórios de acompanhamento do processo de aprendizagem de
maneira descritiva focando-se nas experiências vividas e ainda, elaborar
materiais que possam apoiar as famílias tanto no conhecimento quanto no
acompanhamento do processo educativo.
Considerando
a especificidade da Educação Infantil e a singularidade dos bebês e
crianças pequenas, meninas e meninos, a docência nesta etapa da educação
básica se constitui como um ofício em construção, com saberes
singulares, sobretudo, marcados pelo fato da Educação Infantil ser um
espaço educacional e não escolar com formas específicas de ser
professor, de elaborar o planejamento, os registros e a avaliação, de
realizar a gestão dos tempos e materiais a fim de que as crianças tenham
tempo para construir os seus projetos e teorias, relações, etc.
A
partir do princípio de que o educador (a) ao colocar a criança no
centro do projeto educativo, assume um papel relevante, mas que não é o
centro das relações, sendo aquele que cria condições para que os
pequenos e pequenas possam relacionar-se com a “vida”, com o
conhecimento socialmente construído e que favoreça a expressão criativa
por meio das diferentes linguagens.
Enfim,
o papel do educador (a) da infância é o de criar condições, organizar
tempos e espaços, selecionar e organizar materiais de forma criativa,
observar as crianças, avaliar processos construindo registros que
historicizem o tempo vivido, apoiar as suas descobertas e projetos a fim
de possibilitar a ampliação das experiências das crianças, sem que o
foco esteja centrado nele e sim na ação e invenção dos meninos e das
meninas.
Tais considerações consolidam a necessidade de seguir refletindo para compreender: Como exercer a docência na primeira infância?
VI. Participação da Família
Toda
comunicação pressupõe diálogo, que só se efetiva quando o falante se
dirige a um outro, individual ou coletivo, que faz parte do projeto de
fala do falante e, que, para a efetivação do diálogo, é necessário que a
linguagem e a situação que ela refere sejam do domínio comum (GOULART,
2001, p. 88).
A
Educação Infantil como espaço sócio-educativo, democrático e coletivo,
entendendo “Democracia como um sistema de vida que só pode ser
considerado efetivo quando é construído pelo grupo social, de acordo com
interesse e convicções comuns” (OLIVEIRA, 2001, p.13), deve considerar
as famílias.
A
integração das famílias perpassa todo o período de permanência das
crianças nos EMEI, EMEBS, CEI, CEII, CEMEI, quando conjuntamente todos
os atores envolvidos passam a construir um projeto educativo por meio de
diferentes processos de participação. Esse projeto precisa garantir os
princípios do cuidar e do educar enquanto ações indissociáveis da ação
pedagógica, visando o desenvolvimento integral da criança, onde os
tempos de infância são considerados, e as crianças percebidas em suas
particularidades e respeitadas em suas diferenças. Assim sendo, (...)
Ambas as instituições – famílias e escolas – estão enraizadas em
identidades sociais, étnicas, culturais e religiosas.
Portanto,
a convivência produtiva com padrões e valores familiares e comunitários
na instituição de educação infantil é necessária para manter relações
que discutam e reflitam sobre as identidades e as diversidades das
crianças. (BRASIL, 2009, p. 33)
Nesta
perspectiva a ação educativa, entre família e escola, é reconhecida
como um trabalho em complementaridade e partilha de responsabilidades.
A
participação da família na instituição é de extrema importância para o
desenvolvimento das crianças e, sobretudo, para a promoção do trabalho
democrático participativo, portanto há de se garantir condições para se
realizar trocas, interações com outras pessoas, sejam crianças ou
adultos. Essa participação efetiva contribui imensamente na medida em
que informações são compartilhadas, aprendizagens são construídas e
reconstruídas em contextos específicos – contextos estes que estão
sempre abertos à mudança, tais como: cuidar e educar; do brincar; das
diferentes infâncias; das marcas infantis em relação aos espaços; das
interações e do social ampliado.
Para
garantia da efetiva participação, é necessário buscar momentos de
encontros de convivência produtiva, para que além do aspecto formativo,
no sentido da promoção de debates temáticos, se qualifiquem as reuniões
de familiares com profissionais da Unidade Educacional e dos Conselhos
de Escola/Conselhos de CEI como importantes fóruns. Nesses espaços cada
segmento deve ter garantido a voz e a escuta num processo dialógico de
construção da ação educativa. Face a isso, convêm promover a garantia de
horários que considerem as necessidades das famílias trabalhadoras,
criando condições da comunidade se
apropriar da escola como espaço de convivência, cultura e lazer:
festividades, feiras de produção local (comida típica, artesanato,
canto, produção agrícola), entre outras.
No
período de ingresso da criança e ao longo do ano, deve se garantir a
presença da família na instituição, a fim de contemplar os itens
elencados por Malta (MEC/2009), nas instituições de Educação Infantil:
- As mães e os pais recebem uma atenção especial para ganhar confiança e familiaridade com a creche [com a Educação Infantil];
-
Nossas crianças têm direito à presença de um de seus familiares na
creche [na Educação Infantil] durante seu período de adaptação e,
acreditamos, sempre que houver necessidade.
-
O planejamento reconhece que o período de adaptação como um momento
muito especial para cada criança, sua família e seus educadores.
Por
fim, destacamos que a escola é a representação do conjunto de pessoas
que a constitui enquanto espaço de convivência entre os diferentes
autores em constante protagonismo de liderança compartilhada, na medida
da dialogicidade em que juntos viabilizem ações de atendimento as
necessidades da comunidade local, das perspectivas acerca do
desenvolvimento das crianças e do papel de cada autor na ação educativa.
Portanto temos na construção coletiva e participativa do Projeto
Político Pedagógico a ferramenta que legitima as intenções de todos os
atores.
VII. Projeto Político Pedagógico
Para
que a Educação Infantil seja um “locus” de vivência de múltiplas
experiências e diferentes linguagens, espaço privilegiado de
socialização se faz necessária a construção coletiva de um Projeto
Político Pedagógico centrado na criança. Projeto que transpareça as
concepções de todos os atores envolvidos com os meninos e meninas:
educadores (as) e comunidade, além das próprias crianças.
Como preconizam as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil
Proposta
pedagógica ou projeto político pedagógico é o plano orientador das
ações da instituição e define as metas que se pretende para a
aprendizagem e o desenvolvimento das crianças que nela são educados e
cuidados. É elaborado num processo coletivo, com participação da direção
[equipe gestora], dos professores e da comunidade escolar.
O
Projeto Político Pedagógico deve ser um documento dinâmico,
possibilitando sempre ser revisitado, apresentando as continuidades das
propostas pedagógicas e administrativas, encaminhamentos realizados,
dificuldades superadas e outras passíveis de intervenção. Portanto, o
Projeto Político Pedagógico é um instrumento de historicidade da Unidade
Educacional.
Assim,
se caracteriza como documento de consulta para todos os membros da
comunidade escolar, onde resgatamos ideias, registramos os avanços das
proposições iniciais, e conseguimos verificar se os novos caminhos
propostos já foram ou não trilhados pela Unidade Educacional.
Um
Projeto Político Pedagógico da Educação Infantil em consonância com
esta normatização deve ser constituído com a proposição de
instrumentalizar ao máximo as oportunidades de escuta às crianças;
contemplar as dimensões do cuidar e educar, do brincar, da cultura da
infância e das culturas infantis.
Salienta-se
que instituir processos contínuos de autoavaliação participativos,
assim como visitas aos territórios da comunidade escolar, podem ser
ricos instrumentos para fornecer diretrizes na construção das metas a
serem alcançadas pela Unidade Educacional, bem como uma valorosa
avaliação do percurso trilhado permitindo redimensionar o Projeto
Político Pedagógico segundo o constatado.
VIII. Contextualizando a Avaliação na Educação Infantil
Na
história da Rede Municipal de São Paulo, verifica-se que a Educação
Infantil teve início em nosso município em 1935, com a criação dos
Parques Infantis e no ano de 1975 eles passam a ser denominados Escolas
Municipais de Educação Infantil (EMEI). Naquela época exercia uma função
compensatória/preparatória da criança para o 1º grau, que objetivava
“compensar” as privações culturais sofridas pelas crianças das classes
populares, levando a criança a realizar exercícios com lápis e papel
numa produção excessiva que enfatizava o treino e a mecanização. Nessa
concepção avaliar ficava restrito a verificação e registro do que foi
transmitido à criança.
Com
o passar dos anos, a Rede Municipal de Ensino de São Paulo foi mudando
sua concepção de Educação Infantil, acompanhando as mudanças
apresentadas em nosso país. Assim, desde agosto de 1992 quando da
aprovação do Regimento Comum das Escolas Municipais de São Paulo a
avaliação da aprendizagem na Educação Infantil foi efetivada através de
relatórios descritivos individuais que teve por objetivo descrever as
atividades das crianças, sem, contudo classificá-las nem tampouco servir
de critérios para retê-las no prosseguimento de sua vida escolar.
A
partir dos anos 2000 tem-se aprimorado esses relatórios e a sua
utilização, introduzindo o conceito de documentação pedagógica,
entendida como instrumento que auxilia os profissionais da Educação
Infantil a historicizar o processo vivido no dia a dia pelas crianças no
percurso de suas aprendizagens.
Em
meio a essas mudanças a Secretaria Municipal de Educação integra à sua
Rede as Creches que se encontravam sob responsabilidade da então
Secretaria de Assistência Social, com nova denominação: Centros de
Educação Infantil - CEI, trazendo práticas de registros diários que
também são incorporadas aos estudos sobre avaliação.
Toda
ação avaliativa demonstra uma opinião e uma apreciação de valor,
portanto, vinculada a concepções. Nos dispositivos da LDB e nas
concepções das DCNEI, sinalizam que as Unidades Educacionais devem
planejar formas de avaliação que contemplem o acompanhamento do trabalho
pedagógico e avaliação do desenvolvimento da criança, avaliando-a em
relação a si mesma.
A
avaliação na Educação Infantil constitui-se em um elo significativo
entre a prática cotidiana vivenciada pelas crianças e o planejamento do
(a) educador (a). Para que ela se efetive é necessário acompanhar o
crescimento das crianças na elaboração de suas hipóteses e conhecimento
do mundo, não se restringindo a um rol de comportamentos desejados, mas
sim como fundamento da ação educativa que parte da valorização da
criança em suas manifestações.
IX. Avaliando o Processo de Aprendizagem e Desenvolvimento da Criança
Partindo
do pressuposto que “a avaliação será sempre da criança em relação a si
mesma e não comparativamente com as outras crianças” (MEC, 2012),
entendemos que avaliação deve servir para registrar as situações /
experiências vividas pelas crianças no dia-a-dia, enfatizando suas
descobertas e aprendizagens, considerando o princípio de que a avaliação
é um processo contínuo, para identificar suas potencialidades,
interesses e necessidades.
Tal
concepção de avaliação se efetiva por meio de uma sistematização de
registros significativos dos fazeres vividos pelas crianças, que tenham
por objetivo registrar a história dos caminhos que o grupo percorreu em
suas inter-relações (das próprias crianças, dos (as) educadores (as) e
dos demais adultos com as quais convivem) e vem percorrendo em busca do
conhecimento de mundo e suas formas de expressão.
A
sistematização desses registros permite uma reflexão permanente sobre
as ações e pensamentos das crianças e assumem diferentes formas:
relatórios descritivos individuais e do grupo, portfólios individuais e
do grupo, fotos, filmagens, as próprias produções das crianças
(desenhos, esculturas, maquetes, entre outras).
Esses
registros são considerados “documentação pedagógica”, que segundo
Dahlberg, Moss e Pence (2003) são as formas pela qual se expressa o que
as crianças estão dizendo e fazendo, é o trabalho das crianças, é a
maneira como o (a) educador (a) se relaciona com elas e com o seu
trabalho. Não pode ser confundida com a “observação da criança”, esta
diz respeito à avaliação do fato de ela estar adaptada a um conjunto de
padrões. Já a documentação pedagógica está interessada em enxergar e
entender o que está acontecendo no trabalho pedagógico e o que a criança
é capaz de fazer sem qualquer estrutura predeterminada de expectativas e
normas.
A
documentação pedagógica sempre está pontuada no momento histórico
vivido, na concepção subjacente e na visão que temos do trabalho
pedagógico. Pode, também, servir para a gestão democrática, quando as
várias vozes dos atores e protagonistas (meninos e meninas, educadores
(as) e famílias) são ouvidas, dando visibilidade aos saberes vividos na
Unidade Educacional. Por meio da documentação pedagógica é possível
formular perguntas sobre a maneira como os bebês, as crianças e o (a)
educador (a) foram se constituindo em sua prática, como o conhecimento é
construído e que tipo de instrumentos o ambiente oferece para a
experimentação e para simbolização dos atores sociais de pouca idade.
Na elaboração da documentação pedagógica, algumas perguntas podem nortear o olhar dos educadores em suas intervenções:
- Quais os interesses dos bebês e das crianças?
- Que tipos de teorias meninos e meninas elaboram?
- Como posso instigar/desafiar essas teorias?
-
Como propiciar que os bebês e as crianças possam ampliar suas
experiências com as diferentes temáticas e linguagens garantindo
situações significativas de construção de conhecimento, superando
atividades desconexas e apartadas?
- Como os bebês e as crianças constroem as suas culturas de pares e com os adultos?
- Como os bebês demonstram na relação entre si e com os adultos suas preferências e os seus sentimentos?
- O que as crianças e suas famílias pensam sobre a Educação Infantil?
Entende-se
que a documentação pedagógica deve acompanhar as crianças em seu
percurso educativo e que esta corrobora com as concepções de educação
infantil, de criança/infância e de currículo, bem como com a
participação das famílias explicitadas no presente documento.
IX. AVALIAÇÃO INSTITUCIONAL
O
campo da avaliação educacional abrange diferentes âmbitos: a
aprendizagem, as instituições, as políticas educacionais, os programas.
Este documento objetiva marcar para além do enfoque no âmbito da
aprendizagem e do desenvolvimento da criança, ou seja, a denominada
avaliação institucional.
A
avaliação institucional pode contemplar tanto a autoavaliação quanto a
avaliação externa. Entende-se por autoavaliação o conjunto de
procedimentos avaliativos organizados por integrantes da instituição
educativa que realizam a avaliação do trabalho e das condições de sua
produção – professores, outros profissionais da instituição, alunos e
pais. (SOUSA, 2009)
A
avaliação externa ocorre quando se busca a avaliação da instituição
educativa por meio do olhar de agentes públicos ou entidades da
comunidade escolar, que analisam o trabalho com um “olhar de fora”.
Cabe distinguir, a avaliação na educação infantil e a avaliação da educação infantil.
A
avaliação na educação infantil se refere àquela feita internamente no
processo educativo, focada nas crianças enquanto sujeitos e coautoras de
seu desenvolvimento. Seu âmbito é o microambiente. (DIDONET, 2013)
Sendo
assim, a avaliação na educação infantil, é construída pelos (as)
educadores (as) que interagem com os meninos e as meninas no cotidiano e
pelas próprias crianças. É composta por instrumentos que auxiliam a
historicizar o processo vivido no dia a dia, no percurso das
aprendizagens, se afastando de toda e qualquer forma de avaliação que
compare ou meça o desenvolvimento e a aprendizagem das crianças com
finalidades classificatórias e segregacionistas.
A
avaliação da educação infantil toma esse fenômeno sociocultural (“a
educação nos primeiros cinco anos de vida em estabelecimentos próprios,
com intencionalidade educacional, configurada num Projeto
Político-Pedagógico ou numa proposta pedagógica”), visando responder se e
quanto ele atende à sua finalidade, a seus objetivos e às diretrizes
que definem sua identidade. Essa questão implica perguntar-se sobre quem
o realiza, o espaço em que ele se realiza e suas relações com o meio
sociocultural. Enquanto a primeira avaliação aceita uma dada educação e
procura saber seus efeitos sobre as crianças, a segunda interroga a
oferta que é feita às crianças, confrontando-a com parâmetros e
indicadores de qualidade. (DIDONET, 2013)
Essa
é feita por um conjunto de profissionais do sistema de ensino
(gestores, diretores, coordenadores pedagógicos e outros especialistas,
professores e outros educadores da Unidade), pelas famílias, pela
comunidade, etc.
Por
ser centrada na instituição educativa, a avaliação possibilita que cada
agrupamento possa olhar para o seu contexto e daí retirar informações e
tomar decisões, permitindo, ainda, que sua análise leve em conta os
fatores intervenientes na qualidade da educação, que se situem além da
instituição educativa, em instâncias intermediárias do sistema
educacional ou em seu contexto.
A
avaliação institucional traz uma perspectiva formativa, pois
possibilita a valorização dos contextos em que os resultados foram
produzidos. Permite comparar o que foi executado com o que estava
previsto, identificando os resultados não previstos, os fatores que
facilitam ou são obstáculos à qualidade da educação ofertada; favorece a
reflexão fundamentada em dados, visando desencadear mudanças; põe em
diálogo informações de fontes variadas (das crianças, dos docentes, das
famílias, das condições objetivas de trabalho) possibilitando, desse
modo, a avaliação do Projeto Político Pedagógico. Assim, a avaliação
institucional pode ser instrumento potente para reconstrução das
práticas, resultantes do confronto e da negociação de posições, de
interesses, de perspectivas; e ainda, para o fortalecimento das relações
internas, bem como das demais instâncias decisórias da Rede de Ensino.
A
Secretaria Municipal de Educação ao subsidiar e incentivar as Unidades
Educacionais na utilização dos Indicadores de Qualidade para a Educação
Infantil, publicados pelo Ministério da
Educação em 2009, como um instrumento de autoavaliação da qualidade das
instituições de Educação Infantil ratifica o processo participativo e
aberto a toda comunidade.
Tais
Indicadores possibilitarão que as Unidades Educacionais redirecionem
trajetórias, subsidiem decisões e propostas com vistas à melhoria da
qualidade do atendimento oferecido às crianças na Educação Infantil da
Cidade de São Paulo.
X. Articulação da Educação Infantil com o Ensino Fundamental
A
transição de uma etapa da educação para outra não pode romper com os
benefícios da aprendizagem construída pelas crianças. Cabe assim, pensar
esse processo de transição requer planejamento por parte dos
profissionais de educação e um olhar atento para a questão da
articulação entre educação infantil e ensino fundamental, bem como
propostas pedagógicas integradas, contextualizadas, no tempo e no espaço
das instituições educacionais, que considerem a concepção de
criança/infância, a organização dos espaços e tempos, a valorização do
brincar, do lúdico e da imaginação.
Nesse
sentido é imprescindível analisar e refletir sobre como e quais
infâncias estão sendo vivenciadas, e ainda como a transição pode
contribuir para o desenvolvimento e aprendizagem infantil.
Para
que essa transição considere realmente os sujeitos diretamente
envolvidos, as especificidades de meninos e meninas é importante ter um
olhar para esse período de vida, percebendo cada indivíduo em suas
múltiplas dimensões e linguagens, sem restringir sua condição apenas à
de aluno. Assim como na Educação Infantil, no Ensino Fundamental também é
esperado que as propostas pedagógicas valorizem o movimento, levem em
conta os saberes e fazeres dos (as) pequenos (as) e os contextos sociais
e culturais em que eles (as) estão inseridos (as), reconhecendo-os (as)
como atores sociais e permitindo que participem em condições de
igualdade nos espaços educativos.
O
processo de transição da educação infantil para o ensino fundamental
deve contemplar desde o currículo, compreendido como um instrumento
vivo, até a criação de espaços adequados tanto nas salas, quanto na área
externa, além de práticas que viabilizem as interações criança/criança
para que possam desenvolver suas culturas de pares infantis.
Assim,
a transição efetiva-se como um momento positivo que respeita o desejo
de conhecer e considera a continuidade do processo de aprendizagem. Pode
ser articulada com ritos de passagem significativos (ações conjuntas
entre as duas etapas da educação básica), a partir de contextos próximos
do universo significativo dos meninos e meninas. Nessa linha, são consideradas descontextualizadas as formaturas, pois não fazem parte do universo infantil.
XI. Registrando o Processo de Avaliação
Nos
itens anteriores procurou-se evidenciar como se dá o processo de
avaliação na educação infantil, fundamentados nas concepções de educação
infantil, de criança/infância e de currículo, que devem orientar os
fazeres didáticos propostos no decorrer do processo de aprendizagem e
desenvolvimento das crianças que convergem para uma síntese periódica de
avaliação considerada como elo significativo entre a prática vivenciada
pelas crianças e o planejamento do(a) educador(a).
Nesse
contexto o registro de avaliação na educação infantil se consubstancia
em documentação necessária que orientará o replanejamento das ações
pedagógicas e as intervenções educacionais necessárias.
A
observação criteriosa, cuidadosa e o respeito ao ritmo individual de
cada criança são aspectos que também precisam ser considerados nesse
processo.
Com
isso, a cada período vivido e experimentado pelos (as) pequenos (as), o
(a) educador (a) terá em mãos para sua análise, valoroso material, ou
seja, terá um arquivo/registro dos processos vividos pelas crianças
individualmente e em grupo.
Partindo
de tal premissa, o registro do processo de avaliação na Educação
Infantil exige por parte das Unidades Educacionais especial atenção, uma
vez que se constitui em importante instrumento na análise do
desenvolvimento e aprendizagem das crianças.
O
conjunto dos diferentes instrumentos de acompanhamento, que se
constituem a partir dos registros de observação do (a) educador (a),
propicia a indicação das intervenções pedagógicas necessárias às
aprendizagens e desenvolvimento dos meninos e meninas, sintetizados na
documentação pedagógica, cuja apresentação aos pais e/ou responsáveis
possibilitará o conhecimento do processo.
O assunto também tem relevância nos textos legais expedidos em âmbito federal, dos quais destacamos:
Nos termos do artigo 31, da LDB “A educação infantil será organizada de acordo com as seguintes regras comuns:
“ A educação Infantil será organizada de acordo com as seguintes regras comuns:
I
– avaliação mediante acompanhamento e registro do desenvolvimento das
crianças, sem o objetivo de promoção, mesmo para o acesso ao ensino
fundamental; (g.n.)
........
........
IV
– controle de frequência pela instituição de educação pré-escolar.,
exigida a frequência mínima de 60%(sessenta por cento) do total de
horas;
V – expedição de documentação que permita testar os processos de desenvolvimento e aprendizagem da criança. (g.n.)
As
Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil – DCNEI,
fixadas pela Resolução CNE/CEB nº 05/09, ratificam os dispositivos da
LDB e orientam que a avaliação deve ser compreendida como parte do
trabalho pedagógico, sem o objetivo de promoção ou classificação. Assim,
se torna fundamental o hábito de registrar o processo vivido pelas
crianças por meio de múltiplos instrumentos.
O
artigo 10 da mesma Resolução, assim determina: “As instituições de
Educação Infantil devem criar procedimentos para acompanhamento do
trabalho pedagógico e para avaliação do desenvolvimento das crianças,
sem o objetivo de seleção, promoção ou classificação, garantindo:
I – a observação crítica e criativa das atividades, das brincadeiras e interações das crianças no cotidiano;
II - utilização de múltiplos registros realizados por adultos e crianças (relatórios, fotografias, desenhos, álbuns etc.) (g.n.)
III
– a continuidade dos processos de aprendizagens por meio da criação de
estratégias adequadas aos diferentes momentos de transição vividos pela
criança (transição casa/instituição de Educação Infantil, transições no
interior da instituição, transição creche/pré-escola e transição
pré-escola/Ensino Fundamental);
IV
- documentação específica que permita às famílias conhecer o trabalho
da instituição junto às crianças e os processos de desenvolvimento e
aprendizagem da criança na Educação Infantil. (g.n.)
V
– a não retenção das crianças na Educação Infantil.” E continua no seu
artigo 11: “ Na transição para o Ensino Fundamental a proposta
pedagógica deve prever formas para garantir a continuidade no processo
de aprendizagem e desenvolvimento das crianças, respeitando as
especificidades etárias, sem antecipação de conteúdos que serão
trabalhados no Ensino Fundamental.”
Na
mesma esteira, o Parecer CNE/CEB 20/09, que acompanha a Resolução
CNE/CEB 5/09, assim dispõe quanto à questão do registro, reafirmando os
demais textos legais supramencionados:
“A
observação sistemática, crítica e criativa do comportamento de cada
criança, de grupos de crianças... e a utilização de múltiplos registros
realizados por adultos e crianças (relatórios, fotografias, desenhos,
álbuns etc. feita ao longo do período... (g.n.)
............
A
documentação dessas observações e outros dados sobre a criança devem
acompanhá-la ao longo de sua trajetória na Educação Infantil e ser
entregue por ocasião de sua matrícula no Ensino Fundamental...” (g.n.)
Finalizando
o Parecer CNE/CEB Nº 20/2009, ao tratar sobre o acompanhamento da
continuidade do processo de educação, o relator ainda expressa:
“... As Instituições de Educação Infantil devem assim:
a) ........
b) ........
c)
planejar o trabalho pedagógico reunindo as equipes da creche e da
pré-escola, acompanhado de relatórios descritivos das turmas e das
crianças, suas vivências, conquistas e planos, de modo a dar
continuidade a seu processo de aprendizagem;
d)
prever formas de articulação entre os docentes da Educação Infantil e
do Ensino Fundamental (encontros, visitas, reuniões) e providenciar
instrumentos de registro – portfólios de turmas, relatórios de avaliação
do trabalho pedagógico, documentação da frequência e das realizações
alcançadas pelas crianças – que permitam aos docentes do Ensino
Fundamental conhecer os processos vivenciados na Educação Infantil, em
especial na pré-escola e as condições em que se deram, independentemente
dessa transição ser feita no interior da mesma instituição ou entre
instituições, para assegurar às crianças a continuidade de seus
processos peculiares de desenvolvimento e a concretização de seu direito
à educação.”
A
preocupação com a avaliação ainda se faz presente em outros documentos
elaborados pelo MEC - “Indicadores de Qualidade na Educação Infantil”
(MEC/ Secretaria de Educação Básica – 2009), relativo ao Indicador 1.3 -
Registro da Prática Educativa, que assim expressa:
“Avaliação
pressupõe compromisso com o que foi planejado... com base em
documentação pedagógica rigorosa, resultante de observação e registros
cuidadosos das realizações práticas...”.
Mais
recentemente, em documento produzido pelo Grupo de Trabalho instituído
pela Portaria MEC Nº 1.147/2011, denominado “Educação Infantil:
Subsídios para construção de uma sistemática de avaliação”,
outubro/2012, pode-se destacar:
“As
Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (Resolução
CNE/CEB nº 05/2009) explicitam que as creches e pré-escola devem
planejar formas de avaliação que contemplem o acompanhamento do trabalho
pedagógico e a avaliação do desenvolvimento da criança.
Nesse
sentido, as observações e registros devem ser contextualizados, isto é,
tomando as crianças concretas, em suas histórias de vida, seus
ambientes sociais e culturais e coconstrutoras de um processo dinâmico e
complexo de desenvolvimento pessoal e social. Variados devem ser os
registros, tais como a escrita, a gravação de falas, diálogos,
fotografias, vídeos, os trabalhos das crianças, etc.
Frente
a todo o exposto pode-se afirmar que é farta a documentação que trata
da avaliação da educação infantil e da importância do registro nesse
processo. À vista deles cabe a cada
Unidade Educacional desde o momento de planejamento, prever formas de
avaliação do trabalho realizado, definindo como se realizarão os
diferentes registros.
A
construção desses registros, inclusive os decorrentes da observação do
educador, deve favorecer o acompanhamento do trabalho pedagógico, nas
EMEI, EMEBS, CEI, CEII e CEMEI.
Os
momentos de planejamento devem, sempre, prever espaços nos quais os
educadores registrem suas reflexões sobre o trabalho desenvolvido. O
educador poderá manter um caderno contendo fatos relativos a cada
criança, individualmente. Além disso, existem, ainda, os registros
construídos pelas próprias crianças, que devem ser considerados na
elaboração de portfólios individuas e coletivos e também, ocupar lugar
de material de análise e reflexão das professoras bem como de estudos
nos horários e momentos formativos. Os portfólios individuais serão
compostos de atividades desenvolvidas, além de falas das crianças,
fotos, objetos, coleções, etc. Já os portfólios coletivos conterão as
atividades realizadas em grupo pelas crianças, além de algumas
observações próprias do educador, tais como: a participação de cada
criança na atividade proposta, o surgimento de lideranças, os possíveis
conflitos, etc.
Ao
final de cada semestre, com base em todos os registros realizados no
decorrer do período, caberá ao educador (a), elaborar os relatórios
descritivos com a finalidade de resguardar os registros elaborados
pelos(as) educadores(as) resultantes das observações das crianças e
analisar o trabalho como um todo, nas suas diferentes dimensões.
Devem
constar ainda dos relatórios descritivos dados relativos às
especificidades de cada criança, tais como: problemas de saúde da
criança, históricos médicos, telefones de contato com as famílias,
caderneta de vacinação, etc. A composição do relatório descritivo
constituir-se-á em documentação pedagógica que favorecerá a análise e
identificação das necessidades ou dos problemas verificados na
trajetória educacional da criança.
Fundamentados
nos relatórios descritivos e demais registros das crianças de forma
individual ou coletiva, a Unidade Educacional expedirá documentação
educacional referente a essa etapa da educação básica, vez que tal
medida é exigida atualmente por lei.
XII. Expedindo Documentação Educacional
A
Lei Nº 12.796/2013, ao prever a expedição de documentação que permita
atestar os processos de desenvolvimento das crianças, por certo, não se
remete a certificação de conclusão de curso, tal como é realizado no
Ensino Fundamental e nem, tampouco, à apresentação de boletins contendo
notas ou conceitos.
A
Educação Infantil, primeira etapa da educação básica, possui
características específicas que não podem ser relegadas em função da
nova imposição legal. O que se almeja, na realidade, é que as Unidades
de Educação Infantil, a partir de suas concepções, construam um
documento educacional que colabore para que o(a) professor(a) do Ensino
Fundamental detenha condições de proceder a realização do processo de
transição de uma para outra etapa de forma harmoniosa e, ainda, que
tenha subsídios para planejar suas atividades em continuidade ao
trabalho desenvolvido na Educação Infantil.
A
elaboração de um relatório descritivo que reflita a trajetória
percorrida pela criança e que forneça aos educadores (as) os elementos
necessários para a continuidade do trabalho pedagógico pode ser a melhor
forma de se expedir a documentação prevista em lei.
Para que isso se efetive, o relatório descritivo deverá conter, no mínimo:
a) o percurso realizado pelo grupo decorrentes dos registros semestrais;
b) o percurso realizado pela criança individualmente nesse processo;
c) anotações contendo falas ou outras formas de expressão da criança que reflitam sua auto análise;
d) parecer do(a) educador(a) fundamentado nas observações registradas no decorrer do processo;
e) parecer da família quanto as suas expectativas e os processos vividos.
f)
observações sobre a frequência da criança na Unidade, como indicador de
sua interferência no processo de desenvolvimento e aprendizagem da
criança;
g) outras informações julgadas pertinentes.
A
documentação educacional a ser expedida ao final da etapa de Educação
Infantil será de responsabilidade da Unidade Educacional e deverá ser
elaborada em papel timbrado e expressar os processos de desenvolvimento
da criança e o percentual de frequência anual, com a assinatura do
educador (a) responsável e do Diretor de Escola e/ou do Coordenador Pedagógico.
Os
registros da documentação pedagógica, das crianças do Infantil II, após
sua expedição, ficarão disponíveis em formato digital possibilitando o
acesso das Unidades de Ensino Fundamental e das famílias das crianças às
informações com relação ao acompanhamento das crianças.
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